sábado, 6 de outubro de 2012

Cesar e a estrela


Diante da morte todas as resoluções se dissolvem. As ações tornam-se inúteis, as paixões cessam. Só o amor permanece.

Naquele dia senti minha alma prestes a se dissolver, repelindo o corpo agora estranho. Estou morto, o que talvez torne a minha história um pouco mais interessante.

Na minha infância eu era o prelúdio do homem que acabei por me tornar, sempre fui uma criança estranha fazendo coisas estranhas. Eu adorava ficar deitado no chão olhando as estrelas no céu.  Minha mãe me contava que as estrelas tinham o poder de realizar milagres: Antes de morrer elas completam sua última jornada em direção ao infinito, é o que conhecemos por estrela cadente; nesse instante único, elas realizam qualquer desejo de quem as vê passando, seja bom ou ruim. Eu passava horas e horas observando as constelações, esperando a morte de uma única estrela. Apenas uma já seria o bastante. Uma única estrela pela vida que me foi tirada. A vida da minha mãe.

Eu sonhava em revê-la. Meu pai nunca mais foi o mesmo depois que ela morreu. Eu só queria trazê-la de volta, para que ele pudesse ser feliz novamente. Era o que eu mais queria. Todas as noites eu desejava a morte das estrelas como quem deseja que as árvores floresçam no verão. Passava meus dias a vigiá-las. Nem bem tinha completado dez anos e acreditava que já tinha encontrado todas, não só as constelações, mas todas as estrelas. Eu havia nomeado cada uma e, de todas, uma em especial chamava a minha atenção. Ela ficava isolada das outras, não fazia parte de nenhuma constelação conhecida; parecia tão solitária, assim como eu. Passei então a observá-la mais do que as outras. Era como se ela também me observasse. Passei a sentir que ela me acompanhava por todos os lugares, que me protegia, que velava meu sono inquieto; podia ser só uma ilusão, mas eu realmente acreditava.

Enquanto os outros garotos se apaixonavam pela menina mais bonita, eu me apaixonava por uma estrela no céu. Eu cresci com ela. Os anos foram passando e eu a amava cada vez mais. Até que um dia, entre um minuto e outro, percebi que ela já não brilhava como antes, estava diferente, quase apagada. Eu sabia que havia algo errado: ela estava morrendo. Alguns segundos depois ela passou riscando o céu diante de mim. Foi como se ela estivesse apenas me esperando pra morrer, aguardando somente a mim para finalmente cumprir o seu destino e realizar o milagre que eu tanto desejei: trazer a minha mãe de volta a vida. Esperei por aquele momento a minha vida inteira. Então naquele instante eu desejei com todas as minhas forças que ela não morresse. Que viesse ao meu encontro, que fosse minha. De alguma forma meu desejo foi atendido e eu a vi caindo do céu. Saí desesperado a procurá-la, eu tinha que encontrá-la. A minha felicidade dependia disso.




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