Diante da morte todas as resoluções se dissolvem. As ações tornam-se inúteis, as paixões cessam. Só o amor permanece.
Naquele dia
senti minha alma prestes a se dissolver, repelindo o corpo agora estranho. Estou
morto, o que talvez torne a minha história um pouco mais interessante.
Na minha
infância eu era o prelúdio do homem que acabei por me tornar, sempre fui uma
criança estranha fazendo coisas estranhas. Eu adorava ficar deitado no chão
olhando as estrelas no céu. Minha mãe me
contava que as estrelas tinham o poder de realizar milagres: Antes de morrer
elas completam sua última jornada em direção ao infinito, é o que conhecemos por
estrela cadente; nesse instante único, elas realizam qualquer desejo de quem as
vê passando, seja bom ou ruim. Eu passava horas e horas observando as
constelações, esperando a morte de uma única estrela. Apenas uma já seria o
bastante. Uma única estrela pela vida que me foi tirada. A vida da minha mãe.
Eu sonhava
em revê-la. Meu pai nunca mais foi o mesmo depois que ela morreu. Eu só queria
trazê-la de volta, para que ele pudesse ser feliz novamente. Era o que eu mais
queria. Todas as noites eu desejava a morte das estrelas como quem deseja que
as árvores floresçam no verão. Passava meus dias a vigiá-las. Nem bem tinha
completado dez anos e acreditava que já tinha encontrado todas, não só as
constelações, mas todas as estrelas. Eu havia nomeado cada uma e, de todas, uma
em especial chamava a minha atenção. Ela ficava isolada das outras, não fazia
parte de nenhuma constelação conhecida; parecia tão solitária, assim como eu.
Passei então a observá-la mais do que as outras. Era como se ela também me
observasse. Passei a sentir que ela me acompanhava por todos os lugares, que me
protegia, que velava meu sono inquieto; podia ser só uma ilusão, mas eu
realmente acreditava.
Enquanto os
outros garotos se apaixonavam pela menina mais bonita, eu me apaixonava por uma
estrela no céu. Eu cresci com ela. Os anos foram passando e eu a amava cada vez
mais. Até que um dia, entre um minuto e outro, percebi que ela já não brilhava
como antes, estava diferente, quase apagada. Eu sabia que havia algo errado:
ela estava morrendo. Alguns segundos depois ela passou riscando o céu diante de
mim. Foi como se ela estivesse apenas me esperando pra morrer, aguardando
somente a mim para finalmente cumprir o seu destino e realizar o milagre que eu
tanto desejei: trazer a minha mãe de volta a vida. Esperei por aquele momento a
minha vida inteira. Então naquele instante eu desejei com todas as minhas
forças que ela não morresse. Que viesse ao meu encontro, que fosse minha. De
alguma forma meu desejo foi atendido e eu a vi caindo do céu. Saí desesperado a
procurá-la, eu tinha que encontrá-la. A minha felicidade dependia disso.

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